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quebra-cabeças

mãe / filha / feminino / mulher

perda / falta / ausência / abandono / buraco / vazio

espera / receptividade/ compaixão/ afetividade / romance

natureza / ciclos / intuição /

o corpo do abandono / entregue

o corpo afetivo

o corpo sedutor /curvas, redondos, obliquidades, torções

o corpo maneirista / rosto enquanto corpo, expressões do feminino, pequenos gestos

o corpo natureza / amamentar, parir, sangrar /” mulheres que correm com os lobos”

afirmar que o pessoal é político e que a política se enraíza na vida cotidiana e nos sentimentos privados…

… mulheres dilaceradas por pertencerem, simultânea e conflituosamente, ao espaço privado, ao mundo do lar e da família, regido pelas emoções, pelos sentimentos e pela afetividade, e ao espaço público, ao mundo do trabalho regido pela agressividade, pela competitividade e pelo princípio de rendimento (…)

As mulheres passaram a fronteira do  mundo dos homens escamoteando o lado feminino da  vida. Enfrentaram a concorrência no espaço público carregando consigo, escondidas, as raízes no espaço privado. (…) Como a sociedade como um todo e as próprias mulheres não atribuem nenhuma importância social ao que fazem na vida privada, não lhes passou pela cabeça, durante os primeiros anos de feminismo, colocar esse seu lado da existência no outro prato da balança. (…)

Qualquer trabalho é uma via de mão dupla: o trabalhador transforma o objeto, o trabalho transforma a mentalidade do trabalhador, muitas vezes sem que ele se dê conta disso. Ser mãe, durante os longos e duros anos que separam o nascimento de uma criança do momento em que a sociedade começa a se interessar por ela, é ser extremamente ativa. É estranho o completo silêncio que se tece em torno desses anos decisivos. (…) Mesmo as mulheres, acordes com o espítito de sacrifício que lhes é inculcado, concordaram em ignorar esse trabalho essencial por elas desenvolvido ou, pelo menos, em esquecê-lo logo que terminado. Pergunte a qualquer mulher sobre o que ela fez enquanto seus filhos eram pequenos, “Ah! Nada de importante. Vegetei.”

O universo feminino se organiza em torno de saberes que lhe são próprios – o saber feminino é um saber relacional, fundado na reciprocidade e que se realiza pelo diálogo entre dois sujeitos – e se acomoda com dificuldade ao saber instrumental, que supõe uma relação sujeito/objeto e que se realiza em função de um objetivo pretensamente independente do sujeito.

Comparado ao discurso masculino, o falar feminino comporta um uso mais corrente de adjetivos, é mais polido e cortês, privilegia as construções modais que exprimem uma trivialidade de conteúdo assim como uma titude incerta, hesitante e pouco segura de si. (…)

O acesso das mulheres à educação e às carreiras masculinas está se dando concomitantemente a uma preservação dos papéis femininos tradicionais. Não se pode falar, portanto, em uniformização dos modos de vida de homens e de mulheres, e isso explica talvez por que as mulheres hesitam, tergiversam, queixam-se, angustiam-se. (…) Na verdade a pretensa uniformização progressiva dos modos de vida feminino e masculino é incompleta e desigual. As mulheres penetram o mundo dos homens, mas este movimento se faz sem contrapartida nem reciprocidade. Embora a sociedade aceite e, às vezes, até exija que uma mulher saiba falar como um homem, a recíproca não é verdadeira.

Talvez a questão não fosse tanto de saber quem se ocupa da vida privada, e sim em que consiste esta dimensão existencial, qual a sua importância e seu sentido, quais suas chances de sobrevivência. (…) Está em risco a própria sobrevivência da vida privada como esfera autônoma de existência. De fato, a esfera da vida privada se estrutura em torno de relações afetivas, obedece a contratos não escritos de ajuda mútua, gratuita, remunerada apenas pela reciprocidade. (…) na sociedade de mercado, o reconhecimento de uma atividade qualquer passa pelo reconhecimento público de seu valor e pela fixação de um preço a ela atribuída. (…) Talvez tenha chegado a hora de dizer à sociedade a riqueza do universo feminino, até agora oculta porque gratuita, mas também porque não dita, não reconhecida pelas próprias mulheres. (…) Como identificar, nomear esses valores, tirando-os da pieguice e do lugar-comum, para colocá-los em seu estatuto de força constitutiva e atuante no movimento das sociedades?

(trechos tirados do livro “Elogio da diferença. O feminino emergente”, Rosika Darcy de Oliveira)

entre aqui e lá

olhar o trabalho que acabei de fazer e tentar identificar o que de cá já está alí.

a gente sempre carrega algo da última experiência para a experiência atual

um interesse não acaba dentro da gente de uma hora prá outra, ele fica ecoando, rendendo novas perguntas

pequeno inventário de lugares-comuns

o espaço privado

o fazer doméstico

azul_saladeiraprata_espremedorverde_garrafinhavermelho_calcinhamarrom_cestoazul_sabaobranco_lampadaazul_penteprata_forma bolo

enquanto troco de blusa / durmo / faço arroz / falo no telefone / tomo banho / espero a consulta / lavo  a louça / chamo o ônibus / tomo café / arrumo a bagunça / faço compras / atravesso a rua /o neném chora / abro o portão / leio o jornal / guardo a roupas no armário / escovo os dentes / não faço nada / procuro alguma coisa dentro da bolsa / molho as plantas / dou comida pro gato / jogo o lixo fora / tranco a porta / durmo / a vida acontece

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a sala do centro coreográfico é grande, arejada, super bonita. a luz que bate no fim  da tarde é amarelada e quente, relaxa. lá fora os carros fazem barulho, as pessoas entram e saem apressadas do prédio carregando sacolas de compras.

fazer uma escrita automática  – sem censura, sem preocupação semântica, ortográfica, interessântica

só consigo falar das coisas que vivo pessoalmente, dos conflitos e crises que atravesso a cada momento da vida e que a cada momento são diferentes mas também são os mesmos. como se eu não pudesse fugir de uma inquietação inicial e primordial, de ordem existencialista, que diz respeito às agonias que sinto para dar conta da vida e que me parecem tão intensas. será que todo mundo tem agonias existenciais assim tão intensas?  sobre o meu lugar no mundo, sobre as infinitas perguntas que não sei responder e que me faço diariamente, sobre pq a vida não poderia ser mais fácil,  sobre qual a importância do que eu faço no mundo, sobre qual a importância do mundo no que eu faço, sobre em que eu ainda acredito. existem questões que me abalam mas não me movem. não me interessa a questão de um corpo feminino objetificado por exemplo. isso é realmente importante, encontrar o que de fato me move nisso tudo. parece simples, mas não é. o que me move agora exatamente eu ainda não sei, mas tá ligado à experiência da maternidade, eu acho.

mais uma semana

mais uma semana. fui para a sala de ensaio e fiquei lendo, escrevendo, me alongando, dormindo. dando espaço para um novo espaço se abrir. estou lendo “Elogio da diferença – o feminino emergente”, Rosika Darcy de Oliveira. Algumas coisas marcadas no livro :

-  feminino: a intimidade com o sensual / o percebido tão válido quanto o provado /o sentido do que é próximo mais do que o que é próprio

- Antígona: o choque da consciência privada (feminino) com o direito publico (masculino)

“As leituras do fenômeno da iniciação masculina são múltiplas , mas sua significação profunda gira em torno de um eixo comum. Quer a iniciação exorcize a parte de feminino que cada jovem traz em si para confirmá-lo na virilidade, quer ela sirva pra retirar a criança da mãe e vinculá-la à classe dos homens, quer ela faça o jovem esquecer o tempo da inocência doméstica e sua vivência no mudo das mulheres, (…), quer marque o recalque dos desejos proibidos da infância (o incesto) e a inserção na sociedade com a aceitação de suas leis, quer sancione a passagem da natureza para a cultura, do espaço privado para o espaço público, ela reafirma sempre uma polaridade fundamental: o feminino é o infantil e o natural, o masculino é o adulto e o social”.

ainda não me encontrei  com Marcela e João. Talvez semana que vem.

não consigo começar. não posso começar pq ainda tô cheia de outra coisa, ainda não esvaziei, ainda tô em cartaz, ainda tô angustiada com o espetáculo que acabei de fazer, ainda tô fazendo contas para saldar minhas dívidas,  ainda acordo pensando nos problemas que eu talvez nnao consiga resolver nesta temporada, que talvez eu não consiga resolver.

na verdade, eu já comecei, não sei direito pq o momento não foi historicizado (existe essa palavra?), identificado como fato. mas em algum momento , que pode ter raízes há 21 anos atrás ou há 3 anos e meio, eu comecei. Quando olho os posts, os vídeos, tenho certeza.

então

eu não consigo continuar

eu não consigo mergulhar

eu não consigo me apaixonar

eu não consigo me concentrar, me focar, me recortar, me direcionar, me afunilar, me entregar

a este trabalho

acho simplesmente que preciso de um pouco de tempo, que preciso esvaziar, conseguir praticar um pouco de ócio

deixar aparecer

deixar contagiar

até dar uma vontade louca de ir ensaiar

já comi um pacote e meio de biscoito de polvilho, 10 passas, um activia, uma caixinha de tic tac

ontem alguém disse que síndrome de pânico  é muito diferente do que sinto, é muito mais forte. a pessoa não sai na rua, não conversa com os amigos, não faz espetáculos, não vive a vida, não parece uma pessoa normal, como eu. eu sofro é de anisedade mesmo.

eu resolvi escrever sobre isso depois de conversar com o João no telefone. Ele me perguntou pq eu não escrevia nesse blog sobre as  angústias que envolvem meu processo de criação,  a minha vida. elas tb fazem parte de mim, vão estar presentes no trabalho. ou não vão?

Lembrei do Camillo falando (será que foi ele mesmo?) sobre  a decsoberta de umas receitas de cozinha nas margens das páginas de uns escritos do Nietzsche. Se aquilo poderia ser considerado como parte da obra do filósofo ou não. toda uma disccussão super interessante sobre as fronteiras de uma obra.

uma coisa em si

entrei no blog da Thelma e gostei muito do que escreveu:

princípios

2009 Setembro 21

by thelmabonavita

Arranhe primeiro, coce depois.

Uma peça não é sobre algo, é algo em si.

Um estado particular de pensamento é coreografia e produz dança.

Não representar idéias, provocar idéias.

Cada processo requer uma metodologia, uma dramaturgia que se definem ao longo do mesmo.

O modo como se toma decisões, durante seu processo, será parte da singularidade do trabalho.

Se você não tem uma ferramenta, use a de alguém que ela se tornará sua.

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Em março de 2008, eu estava trabalhando em colaboração com Micheline Torres num solo para o Solos do Sesc, no Rio, Estudo para solo banal ( que estreou como “Ela e mais alguma coisa”). Queríamos trabalhar a partir de um baralho anos 60 de pin-ups,  que eu tinha comprado na Bolívia em 1988,  atraída pela beleza kitcsh daqueles corpos nus emoldurados em naipes de baralho.

Na mesma viagem comprei tb uns 50 diferentes calendários (estes bem anos 80) de mulheres nuas, não sei bem porque, mas tb me senti atraída por estas imagens em série.

Na verdade, já tínhamos começado a brincar com as cartas  e as folhinhas  desde 2007, em experimentos sem compromisso que fizemos Denise Stutz, Micheline e eu. Não seguimos em frente, mas tinha ficado uma sensação de que alí havia alguma coisa para se desnvolver. Comparadas com as garotas de calendário dos anos 80 e sobretudo com as de hoje, as pin-ups do baralho tinham um certo romantismo,

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e alguns signos que hoje são tão explícitos e óbvios, alí apareciam tímidos, conferindo um ar quase ingênuo às elas. Pareciam um material  instigante pra trabalhar. Tb  o fato de que elas tinham um outro tipo de corpo, diferente dos padrões atuais de beleza, o que facilitava, eu acho,  ter um distanciamento para  poder observar a repetição de certos padrões corporais, como curvas, torções, inclinações e obliquidades de bacia, cintura, ombros, cabeça e olhar. Estes padrões,  explorados ao radicalismo, podiam levar a distorções e deformações curiosas.

O vídeo que se segue foi a minha primeira improvisação sobre curvas e obliquidades, com iniciação pela bacia. É de fevereiro de 2008 e bem inicial mesmo, bem livre.  Logo em seguida, Micheline e eu abandonamos a idéia das pin-ups na construção do solo, fomos para outro lado.

Mas agora ela volta  neste projeto.

Um ano depois, em abril de 2009, voltei a este universo pensando em propor um projeto para o Rumos Dança. O convívio com a minha filha de 3 anos me trouxe alguns insights sobre representações do feminino, resolvi juntar a referência das pin-ups com a das princesas dos contos de fada como ponto de partida da pesquisa. No cruzamento entre as duas referências aparece a figura da bailarina – a princesa que a todos seduz com sua dança.

Mas como criar estranhamentos e deslocamentos em padõees tão massificadamente colados em nós para produzir novas percepções?

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