afirmar que o pessoal é político e que a política se enraíza na vida cotidiana e nos sentimentos privados…
… mulheres dilaceradas por pertencerem, simultânea e conflituosamente, ao espaço privado, ao mundo do lar e da família, regido pelas emoções, pelos sentimentos e pela afetividade, e ao espaço público, ao mundo do trabalho regido pela agressividade, pela competitividade e pelo princípio de rendimento (…)
As mulheres passaram a fronteira do mundo dos homens escamoteando o lado feminino da vida. Enfrentaram a concorrência no espaço público carregando consigo, escondidas, as raízes no espaço privado. (…) Como a sociedade como um todo e as próprias mulheres não atribuem nenhuma importância social ao que fazem na vida privada, não lhes passou pela cabeça, durante os primeiros anos de feminismo, colocar esse seu lado da existência no outro prato da balança. (…)
Qualquer trabalho é uma via de mão dupla: o trabalhador transforma o objeto, o trabalho transforma a mentalidade do trabalhador, muitas vezes sem que ele se dê conta disso. Ser mãe, durante os longos e duros anos que separam o nascimento de uma criança do momento em que a sociedade começa a se interessar por ela, é ser extremamente ativa. É estranho o completo silêncio que se tece em torno desses anos decisivos. (…) Mesmo as mulheres, acordes com o espítito de sacrifício que lhes é inculcado, concordaram em ignorar esse trabalho essencial por elas desenvolvido ou, pelo menos, em esquecê-lo logo que terminado. Pergunte a qualquer mulher sobre o que ela fez enquanto seus filhos eram pequenos, “Ah! Nada de importante. Vegetei.”
O universo feminino se organiza em torno de saberes que lhe são próprios – o saber feminino é um saber relacional, fundado na reciprocidade e que se realiza pelo diálogo entre dois sujeitos – e se acomoda com dificuldade ao saber instrumental, que supõe uma relação sujeito/objeto e que se realiza em função de um objetivo pretensamente independente do sujeito.
Comparado ao discurso masculino, o falar feminino comporta um uso mais corrente de adjetivos, é mais polido e cortês, privilegia as construções modais que exprimem uma trivialidade de conteúdo assim como uma titude incerta, hesitante e pouco segura de si. (…)
O acesso das mulheres à educação e às carreiras masculinas está se dando concomitantemente a uma preservação dos papéis femininos tradicionais. Não se pode falar, portanto, em uniformização dos modos de vida de homens e de mulheres, e isso explica talvez por que as mulheres hesitam, tergiversam, queixam-se, angustiam-se. (…) Na verdade a pretensa uniformização progressiva dos modos de vida feminino e masculino é incompleta e desigual. As mulheres penetram o mundo dos homens, mas este movimento se faz sem contrapartida nem reciprocidade. Embora a sociedade aceite e, às vezes, até exija que uma mulher saiba falar como um homem, a recíproca não é verdadeira.
Talvez a questão não fosse tanto de saber quem se ocupa da vida privada, e sim em que consiste esta dimensão existencial, qual a sua importância e seu sentido, quais suas chances de sobrevivência. (…) Está em risco a própria sobrevivência da vida privada como esfera autônoma de existência. De fato, a esfera da vida privada se estrutura em torno de relações afetivas, obedece a contratos não escritos de ajuda mútua, gratuita, remunerada apenas pela reciprocidade. (…) na sociedade de mercado, o reconhecimento de uma atividade qualquer passa pelo reconhecimento público de seu valor e pela fixação de um preço a ela atribuída. (…) Talvez tenha chegado a hora de dizer à sociedade a riqueza do universo feminino, até agora oculta porque gratuita, mas também porque não dita, não reconhecida pelas próprias mulheres. (…) Como identificar, nomear esses valores, tirando-os da pieguice e do lugar-comum, para colocá-los em seu estatuto de força constitutiva e atuante no movimento das sociedades?
(trechos tirados do livro “Elogio da diferença. O feminino emergente”, Rosika Darcy de Oliveira)